16 novembro 2024

Posse acadêmica: Tania Miranda / Patronesse: Lygia Fagundes Telles


Neste ato, realizado no dia 16 de novembro de 2024, a partir das 14h na página da A.V.A.L.B. — Academia Virtual de Autores Literários do Brasil sitiada no Facebook, através de sua representante/Fundadora Valéria L., damos posse ao poeta TANIA MIRANDA, como ACADÊMICA EFETIVA, ocupando a Cadeira n° 17, tendo por patrono a escritora LYGIA FAGUNDES TELLES.


Em sequência, apresentamos: 

1- Biografia da Acadêmica;

1.1- Conto da Acadêmica;

2- Panegírico da Patronesse — Lygia Fagundes Telles;

2.1- Transcrição de trecho de obra da Patronesse. 


1- Biografia da Acadêmica;


Biografia escrita pela acadêmica Tania Miranda (escritora, cronista e poetisa) ora empossada, apresentada em forma de crônica.


No dia 20 de outubro de 1957, na cidade de Taubaté, São Paulo, dei o ar de minha graça. Os médicos não acreditaram muito em minha sobrevivência. Então, como era costume naquela época, fui batizada no Hospital, tendo como padrinho o padre que fez a cerimônia e madrinha a enfermeira que assistiu minha chegada a esse mundo. Como dá para notar, a minha passagem para Hades ainda não estava reservada e fiquei por aqui, mesmo. Tive uma infância feliz, com meus pais e meu irmãozinho. Meu pai, apesar de semianalfabeto, gostava muito de desenhar.  E isso descortinou para mim o mundo do desenho. Aprendi a ler com revistinhas da Disney, e fotonovelas, das quais minha mãe é fã incondicional. Hoje já não lê mais as fotonovelas, mesmo porque não se publica mais, não é mesmo? Com as revistinhas despertei meu desejo de escrever. Passei a criar historinhas e montar minhas próprias revistinhas, junto com meu irmão. Meus professores sempre me incentivaram a escrever. Não consegui completar minha formação acadêmica por motivos diversos, daqueles que surgem em nossa vida e acabam por atrapalhar nossos planos. Aos vinte anos comecei a escrever meus primeiros romances, sendo que destes não tenho mais nem uma folha, pois com o tempo meus originais se perderam. Com 27 anos casei-me. Dessa união, que já dura quarenta anos nessa data, tivemos quatro filhos e dois netos. O mais velho é professor de Geografia, o segundinho é formado em Letras e Pedagogia, a menina está terminando seu curso de Artes. Nenhum deles está na área da Educação, por enquanto. O caçula, pai de meus netos, é cozinheiro.


Acho que esqueci de mencionar no inicio deste texto… sou uma transgender. Desde pequena, sempre tive essa percepção. Mais especificamente, sou uma translesbian, pois meu interesse sexual sempre foi por mulheres. Isso significa que sou casada com uma mulher. Por vivermos em uma sociedade não muito receptiva aos diferentes, até a alguns anos atrás eu usava minha persona masculina. Mas desde que comecei a escrever sempre usei meu nome social… Tania Miranda. Gosto de escrever crônicas, romances, contos, poemas. Publico em alguns grupos tanto aqui no Brasil quanto em grupos no exterior. Atualmente estou publicando em dois jornais, o Notibrás, de Brasília e o Alvarenga TV, um jornal da minha região.


Quanto a minha identidade de gênero, todos que gravitam ao meu redor, já sabem a algum tempo. Inclusive trabalho como mulher, e como tal sou tratada.


Tenho publicados dois livros… o primeiro é “Tiresias, a dualidade da alma humana”, onde abordo o tema “transgênero”, mas de uma forma leve, sem nenhuma conotação sexual. Esse livro, na verdade, foi escrito para meus filhos, para conhecerem quem era, na verdade, seu pai. Foi publicado em 2023 pela Editora Verso e Prosa. Meu segundo livro publicado em 2024 é “A volta do Justiceiro”, uma aventura que transita pelo mundo mágico do nosso folclore, embora também traga entidades de outros povos, como o vampiro…


Estou organizando um livro de crônicas que pretendo publicar até o final de 2024 ou inicio de 2025. Seu título provisório é “Não é fácil viver a dois”… também estou finalizando meu terceiro romance, que espero terminar o mais breve possível…


©; Miranda, Tania. São Paulo, Brasil, 2024.


1.1- Conto de autoria da Acadêmica;


CRISTINA


Cristina estava desassossegada. O relógio marcava quase meia noite, e nada de Cristiano chegar. O que era incomum. Normalmente ele estava em casa por volta de nove, dez horas. Ele havia avisado que chegaria tarde em casa nesse dia, mas... tão tarde, assim? O rapaz tinha um compromisso ao qual não poderia faltar, e esse seria o motivo de sua ausência por tanto tempo. Mas ela esperava que fosse um atraso de umas duas horas. E já estava completando quase três de sua hora habitual...


Cristina resolveu sair no quintal, foi até o portão... já estava ficando aflita com a demora do rapaz... já era perto de uma hora da manhã, e nada do rapaz aparecer... o desespero tomava conta de seu ser... o que teria acontecido com ele?  Porque não chegava nunca? Porque não ligava para casa, para dar um sinal de vida? Bem, aí ela se lembrou que  o telefone estava lá na sala, e se porventura tocasse, ela não ouviria, pois do portão até a sala era uma distância razoável...


Os ponteiros do relógio não paravam de caminhar...uma hora... uma e quinze... uma e meia... e nada de Cristiano aparecer. Ela resolveu ligar para o celular do rapaz... novamente, pois já tinha tentado umas trinta vezes, desde que o relógio marcara onze horas e ele não aparecera... como das outras vezes, a resposta era a mesma... "deixe seu recado". Que deixar recado o quê!  O que ela realmente precisava era ouvir a voz de seu filho! Onde esse menino sem juízo se enfiara, Meu Deus? Onde ele estava, que não atendia telefone, não ligava para casa...  o que poderia ter acontecido com ele? Será que... não, era melhor não pensar em coisas ruins... pensar em coisas ruins atrai coisas ruins para a vida da pessoa.. ela tinha que pensar que logo o rapaz estaria abrindo a porta, dizendo como sempre... "mamãe, cheguei!"


Cristiano era um rapaz tranquilo. Tinha dezessete anos, mas qualquer um que o visse diria que era mais velho. Isso por conta da barba que deixara crescer, o lhe dava a aparência de pelo menos uns dois anos a mais... alguns diziam que ele aparentava bem mais, na verdade. O rapaz trabalhava em uma gráfica... uma das poucas que restaram pela cidade. Seu trabalho era importante para a família, uma vez que seu salário ajudava, e muito, na manutenção da casa. Trabalhava das oito às dezessete horas, de segunda a sexta. Após seu expediente, ia para a escola, onde estava terminando o segundo grau. Não era seu costume se atrasar assim.. era muito raro deixar de chegar em casa no horário. Se já tinha chegado tarde alguma outra vez? Sim, mas não tão tarde como nesse dia. Está certo que era sexta feira e ele não trabalharia no dia seguinte... mas ainda assim...


O rapaz avisara a mãe que não iria para a escola nesse dia, pois era aniversário de sua namorada, e ele queria levá-la para jantar fora e depois pegarem um cineminha... a mãe não gostou muito da ideia, mas fazer o que? Dali a alguns meses ele completaria dezoito anos, e seria legalmente dono de seu próprio nariz... e ele sempre foi um garoto ajuizado. Tanto é que, assim que completou quatorze anos, procurou incansavelmente uma colocação profissional, pois "precisava ajudar a casa", como ele mesmo dizia. Cristina era separada do esposo desde que seu filho tinha uns oito anos. Além dele, tinha também mais duas meninas... a Crismara, com quinze anos e a Crisnara, com onze anos. Sim, ela não era muito boa para escolher nomes... mas, enfim... bem, as duas meninas estavam dormindo o sono dos justos, e Cristina queimava os neurônios, tentando imaginar onde o rapaz poderia estar. Se ao menos ele atendesse o celular...


Quando o ponteiro acusou quinze para as duas da madrugada Cristina realmente ficou apavorada... a cidade era muito perigosa, seu bairro era muito perigoso... e se tivesse acontecido alguma coisa com o rapaz? O que seria dela? Como poderia conviver com isso? Cristina começou a rezar, pedindo a todos os santos que conhecia para que trouxessem seu filho em segurança para seus braços... o desespero da mulher era tanto, que estava a ponto de chorar... então... o clique do portão se ouviu... ela quase não acreditou... mas, sim...ouviu os passos que se projetavam pelo quintal, e reconheceu naquele som seu filho amado... o barulho da chave abrindo a porta da sala foi o som mais maravilhoso que ela poderia ouvir naquele momento. Então, calmamente, o rapaz entrou na casa... quando viu sua mãe de pé, a olhá--lo, não conseguiu segurar uma interjeição de espanto...


- Mãe?!


A mulher correu até o rapaz e o abraçou, quase o sufocando com as lágrimas de alívio que escorriam por sua face... 


©; Miranda, Tania. "Cristina", Conto; São Paulo; Brasil.


2- Panegírico da Patronesse — Lygia Fagundes Telles: 


Apresentado em forma de poesia de autoria da acadêmica, ora empossada. 


LIGIA FAGUNDES TELES 


Em mil novecentos e dezoito, em São Paulo, a cidade

Nascia Ligia Fagundes Telles, nossa estrela literária

Desde pequena, histórias tinha para contar de verdade 

No mundo da letras habitava a pequena temerária


Porão e Sobrado foi sua estreia neste mundo tão lindo

Vieram outros, como Ciranda de Pedra, primeiro romance

De sua mente fértil vários personagens iam saindo

E com estes, seu Universo era um turbilhão de nuances


O Concurso Internacional de Escritoras, na França

Consagrou-a no mundo como a grande dama que era

Foi como  se realizasse o sonho que tivera ainda criança

Quando, com sua mãe, levara uma vida austera...


Acadêmica da APL, da ABL e da ACL, em Portugal

Teve seus méritos reconhecidos tanto aqui como lá fora

Pois como escritora não tinha nenhuma outra igual

E ainda hoje não temos ninguém agraciada pela Aurora


Procuradora do Instituto de Previdência de São Paulo

Sempre cumpriu sua função com muito zelo e labor

Podemos dizer que em sua vida embarcou no gaulo

Era a capitã, e o conduziu com toda a pompa e louvor


Muitos amigos e amigas da bela arte da escrita

Escolheram nossa dama em sua senda acompanhar

Sempre foi proba, nunca esteve em estado de contrita 

Pois foi uma deusa que escolheu  entre nós caminhar


Hoje vive nos Elísios, entre as musas que a inspiraram

E nos guia nos caminhos tão lindos da imaginação

Foram suas criações que neste mundo me guiaram

Pois é ela que ilumina meu caminho e meu coração...


©; Miranda, Tania. São Paulo, 24/10/2024.


2.1- Transcrição de trecho de obra da Patronesse:


As meninas


— Loreninha.


Ela sorriu para o jovem que abrira silenciosamente a porta e espiava pela abertura.


— Oi, Guga. Entra. Acabei de sair do banho.

— Estou vendo. —


Quer tomar um? Se quiser, disponha. —

Agora não — disse ele se desvencilhando da sacola de lona. Sentou-se no tapete ao lado dela.


— Você vai ouvir hoje o conjunto? Lá no galpão.

— Estou sem vontade, Guga. Você vai?

— Ainda não sei. Meu irmão toca o sax, eu iria só por isso. Mas também não sei — murmurou ele cruzando as pernas e agarrando os bicos das sandálias.


Ela ficou olhando o sol amarelo bordado no peito da sua camiseta de algodão.


— Foi você que bordou?

— Foi. Ficou bom?

— Está muito tremido — disse ela inclinando-se para beijá-lo na face. Com as pontas dos dedos, alisou-lhe a barba:

— Sei bordar um patinho na perfeição, traga uma camisa e eu bordo.

— Esta é a única.

— A única? Ai meu Pai. Que pobreza, coitadinho do meu Guga.

— Quer me adotar? Estou procurando alguém que me adote. E me ame.

— Espera, vou buscar um uísque — avisou ela correndo até o toca-discos.

— Você conhece o último do Chico?

— Acho que não, estou por fora de tudo, Loreninha. Ou melhor, por dentro.


Ela trouxe a garrafa e um copo. Aproximou o cinzeiro da mão dele que segurava o palito ainda aceso. Ficaram silenciosos, sentados lado a lado, ouvindo a música.


— Por dentro, como?

Ele sorriu.


— Por dentro. Parei de rodar por aí como um alucinado. Eu estava feito um alucinado, estudando sem vontade, fazendo coisas sem vontade, tudo sem vontade, só pra provar. Não quero provar mais nada. Estou bem comigo mesmo. É o que importa. Ou não é?

— Foi por isso que você sumiu da escola?

— Deixei de estudar, Loreninha. Saí de casa, deixei de estudar. A gente alugou aí um porão, cada um dá um tanto por mês. Estamos vivendo numa comunidade.

— Ih.

— Por que ih?

— Nunca dá certo. Querido, vocês acabam brigando, tem sempre um que é mais confuso do que os outros e turbilhona tudo. Nem Jesus aguentava muito a comunidade que fundou, lembra? Até quando hei de vos suportar! ele explodiu um dia, disse isso ou coisa parecida. E era Jesus, já imaginou?

— Vamos então fundar uma comunidade a dois, posso morar com você?


 Ela tomou-lhe a mão. Beijou-a:


— Te amo mas estou apaixonada. Aliás, sem esperança — acrescentou fazendo uma careta. Suspirou. — E o teatro?

— Deixei também. Aquilo era teatro? Tudo tão pobre, sem sentido. Quero viver em profundidade. Ela desviou o olhar dos pés dele, encardidos e magros dentro das sandálias frouxas.

— Mas o que você chama de viver em profundidade? Essa contestação? Essa marginalização? Tranquilamente ele se serviu de mais uma dose. Seus gestos eram suaves. A voz branda. Encarou-a. — Mas quem é que disse que estou contestando? Não estou contestando nada, Loreninha. Nem isso. Contestar é tomar atitude. Quem é que quer tomar atitude? Quero fazer só as coisas que me dão alegria, minha florzinha. Leio, converso, ouço música, faço música, faço amor. Tudo bem simples. Aprendi a pensar, essa uma descoberta importante. Pensar.


Ela levantou-se e foi buscar uma tesourinha.


— Estou adorando conversar com você mas enquanto a gente conversa deixa cortar sua unha? Por favor, Guga, estou lhe pedindo — implorou assim que o viu recuar de rastros, escondendo a mão dentro da camiseta.

— É um instante só!


Deitando a cabeça no regaço dela, ele relaxou o corpo e entregou-lhe a mão. Riu baixinho.


— Está bem, Dalila, se lhe dá tanto prazer. Você parece minha mãe, me vê e já pega a tesourinha. Diz que quero agredir, contestar. Bah. O que quero mesmo é tão diferente.


Assim que cortava a unha, ela passava debaixo da unha cortada a ponta do bastãozinho de pau de laranjeira.


— Acho que você está dentro da doutrina que inventei, vê se não é bacana: ser ou estar. Ou você é ou você está. Preferiu ser, não está na Faculdade nem no palco nem nos grupinhos ativos de política ou arte ou lá sei mais o quê. Está sendo você mesmo, certo? Mas, Guga, você pode ser livre. E ao mesmo tempo cumprir o seu destino você tem um destino, querido.


— Ah, minha Loreninha, leia menos e viva mais. Você é um livro. Venha morar com a gente e vai esquecer um pouco a teoria.

— Vocês fazem pipi no chão, eu passaria o dia lavando os banheiros, perfumando os tronos.

— Trono? — riu ele puxando-a pela mão. Beijou-a no pescoço mas quando tentou beijar-lhe a boca ela se desvencilhou rápida.

— Não, Guga. Não quero. — Não quer por quê?

— Porque estou apaixonada.

— Fabrizio?

— Antes fosse. É um homem casado, velho etecetera. Estou me carbonizando nesse amor.

— Olha aí a literatura dela. Acabou? — perguntou examinando as unhas.


(PAG 138 A 140)









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